Ecologia da Floresta Amazônica: ambiente, gente & plantas
   
 



BRASIL, Norte, Homem, Portuguese, English
Yahoo Messenger -
 

  Histórico
 06/02/2005 a 12/02/2005

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros sites
 UOL
 UOL SITES




 

 
 

Formações Florestais do Arquipélago do Marajó, por Samuel Almeida, Belém, PA

 


Forestas de várzea. A flora da várzea marajoara é distinta e especializada, apresentando uma composição mista entre árvores e palmeiras nas manchas mais consolidadas e arbustos e ervas graminosas nos bancos de sedimentos recém colonizados. As árvores mais comuns e importantes inclui espécies de valor madeireiro como a ucuúba (Virola surinamensis), andiroba (Carapa guianensis), sumaúma (Ceiba pentandra), anani (Symphonia globulifera), pau mulato (Calycophyllum surinamensis), pracuúba (Mora paraensis). Além destas, dominam a paisagem árvores de importância fitossociológica como o arapari (Macrolobium acacifolium), mamorana (Pachira aquatica), mututi (Pterocarpus amazonicus), tachi da várzea (Triplaris surinamensis) e o pracaxi (Pentaclethra macroloba), dentre outras. Nas margens dos rios, o arbusto Machaerium lanatum forma moitas densas, juntamente com capins e canaranas (Paspalum repens, Oryza perenis, Hymenachne amplexicaulis, etc.). Nas matas de várzea as palmeiras mais importantes na economia e fitossociologia local são o murumuru (Astrocaryum murumuru), jupati (Raphia taedigera), açaí (Euterpe oleracea), (Attalea maripa), bacaba (Oenocarpus bacaba), patauá (Oenocarpus bataua), buriti (Mauritia flexuosa), bussu (Manicaria saccifera), paxiúba (Socratea exorrhiza) e várias espécies de marajás (Bactris) e ubins (Geonoma). Grandes áreas são cobertas por stands puros de palmeiras açaí e buriti, são os chamados açaizais e buritizais, importante para a economia local dos ribeirinhos do estuário amazônico. Os solos das várzeas são recentes e formados nos últimos 10 mil anos (holocênicos). Eles pertencem à classe dos solos hidromóficos do tipo gley pouco húmicos. São argilosos, possuem razoável fertilidade e pouco estruturados.

 

Floresta ombrófila densa de terras baixas – florestas de terra firme. Estas florestas são conhecidas regionalmente como florestas ou matas de terra firme. O caboclo amazônico sabiamente assim às denomina, para separá-las daquelas florestas sujeitas à inundação. As florestas de terra firme do Marajó ocorrem dispersas em manchas ou fragmentos naturais de dezenas até centenas de hectares. Localizam-se na parte Sul-sudeste, nos municípios de Salvaterra e Soure, bem como em algumas manchas em terreno mais alto em Ponta de Pedras e Muaná. As principais espécies das terras firmes marajoaras são o acapu (Vouacapoua americana), maçaranduba (Manilkara huberi), aquariquara (Minquartia guianensis), louro vermelho (Ocotea rubra), jatereua (Lecythis idatimon), saboeiro (Abarema jupunba), pará-pará (Jacaranda copaia), cupiúba (Goupia glabra), morototó (Scheflera morototoni), matá-matá (Eschweilera coriacea). Essas florestas são as mais ricas da Amazônia, e podem incluir centenas de espécies em um único hectare. Os solos das terras firmes do Marajó são oxissóis do grupo latossolo amarelo, textura arenosa ou argilo-arenosa, oligotróficos, ácidos e mediamente drenados. Algumas partes podem alagar ou encharcar durante o pico das chuvas.

Bosque de manguezais.Os manguezais do Marajó apresentam porte elevado devido aos sedimentos do rio Amazonas e a energia das correntes do canal Norte. Estão localizados em Salvaterra, Soure e parte das ilhas do norte. Os manguezais apresentam as espécies arbóreas típicas dos manguezais da costa brasileira, associadas com espécies de várzea (Almeida, 1994). Este padrão é devido a sazonalidade no teor de cloretos das águas, cujas maiores concentrações ocorrem no período menos chuvoso (julho a dezembro), enquanto as menores são registradas no inverno chuvoso (janeiro a maio). As espécies mais características são o mangue vermelho (Rhizophora mangle); mangue branco (R. racemosa), sendo que para esta espécie o golfo marajoara é o limite sul de sua distribuição geográfica; siriúba (Avicennia nitida) e o tinteiro (Laguncularia racemosa) (Almeida, 1994 ).



Escrito por Samuel Soares de Almeida às 06h24
[] [envie esta mensagem
]


 

 

Formações não Florestais do Arquipélago do Marajó - por Samuel Soares de Almeida, Belém-PA (ssalmeida@uol.com.br)

Vegetação Não Florestal – Savanas, campos e restingas:  As manchas de savanas abrangem uma variedade considerável de ambientes como os campos limpos baixos, campo cerrado, campo de murundu, savana parque e cerrado “sensu stricto”. As savanas tipo campos cerrados e os campos de murundu são as tipologias mais significativas, com a presença de elementos característicos da flora savânica como muricis (Byrsonima spp.), caimbé (Curatella americana ), sucuúba (Himatanthus sp.), mangaba (Hancornia speciosa).

Campos Naturais Inundáveis: conhecidos regionalmente como os campos do Marajó esta unidade é coberta por espécies de gramíneas e ciperáceas. A maioria destes campos são inundáveis durante o inverno amazônico. As águas de inundação tanto podem ser originadas do transbordamento do leito dos rios, como da acumulação causada pelas águas da chuva. Os tesos é uma denominação local e se constituem nas partes mais altas dos campos, livre de inundação, onde cresce vegetação lenhosa além da graminosa. A diversidade vegetal dos campos do Marajó é considerável. Existem registradas mais de 50 espécies de ervas, macrófitas aquáticas e alguns poucos arbustos. As famílias botânicas que mais contribuem para a riqueza específica e a cobertura dos campos são Poaceae (gramíneas), Cyperaceae, Marantaceae, Os solos dos campos são hidromórficos, gleizados e húmicos, mal drenados e com elevado teor de argila de coloração bruno-acinzentada. São solos de formação holocênica recente (últimos 10 mil anos), sem nenhuma estratificação e estrutura pedológica.

Savana parque ou arboreada. É um tipo de savana que apresenta um denso e verdejante estrato gramíneo-herbáceo, com árvores de porte razoável espalhadas. Essas árvores muitas vezes são espécies comuns às matas adjacentes. As espécies de árvores mais comuns é o jatobá (Hymenaea parvifolia), uchi de morcego(Andira retusa), tachi (Sclerolobium paniculatum) ,fava (Vatairea sp.), sucuúba (Himatanthus articulatus), tapiririca (Tapirira guianensis), saboeiro (Abarema jupunba), sucupira (Diplotropsis sp.), as palmeiras inajá (Attalea maripa), tucumã (Astrocaryum vulgare) e mucajá (Acrocomia aculeata), dentre outras espécies. A maioria dos solos das savanas parque são do tipo gley hidromórfico pouco húmico e com pequenas manchas de podzóis. Os terrenos também são quaternários e topograficamente são mais altos do que os campos inundáveis.

Savana tipo campo cerrado. Essas savanas estão presentes e todo o Marajó e se constituem tipo característico de savanas da região. Elas se assemelham florística e paisagisticamente com os seus correspondentes do Brasil Central. Algumas modificações paisagísticas são verificadas entre as manchas do sul-sudeste da ilha e aquelas localizadas nas ilhas Mexiana e Caviana (N do Marajó). Nas manchas de Joanes e Camará, há maior efeito da sazonalidade e o tapete graminoso seca durante a estiagem. Nas manchas das ilhas do norte, o tapete graminoso apresenta pouco efeito da sazonalidade, e quase não fenece. As espécies mais comuns do estrato arbustivo-arbóreo destes campos cerrados são Byrsonomia crassifolia, Tibouchina aspera, Vismia cayennensis, Curatella americana, Mauritia flexuosa (nas partes mais baixas e nas veredas), mangaba (Hancornia speciosa), dentre outras. No estrato gramíneo-herbáceo pode-se encontrar Andropogon leucostachyus, Aristida longifolia, Axonopus canescens, Bulbostylis junciformis, Cipura paludosa, Rhynchospora cephalotes, Curtia tenuiflora etc. Na parte sul os solos podem ser também hidromórficos mas também lateríticos nas partes do terciário (formação barreiras). Na parte norte são solos hidromórficos, mal drenados e argilosos.

Campos de murundu – “mondrongos”. Os campos de murundu são comuns nas áreas úmidas com savanas inundáveis. Além do Marajó, onde são denominados regionalmente de “mondrongos”. Ocorrem também na ilha do Bananal (Tocantins), Pantanal (Mato Grosso), Humaitá (Amazonas) e na região do Beni (Bolívia). São campos inundáveis com pequenas irregularidades na topografia, causados por alterações feitas no perfil do solo por ninhos de cupins e formigas de solo. Após certo tempo estes insetos sociais se mudam, formando novas colônias. Os antigos ninhos formam torrões de 20 a 40 cm de desnível, suficiente para escapar do alagamento e proporcionar a colonização por espécies arbustivas e até arbóreas. As moitas podem apresentar tamanho e composição diferentes. No geral, as mais estruturadas possuem 5 a 10 m de diâmetro e incluem até 20 espécies. As espécies mais comuns nestes moitas são: Borreria latifolia (vassourinha), Desmodium barbatum, Hyptis atrorubens, Tibouchina aspera, Clitoria racemosa (palheteira), Tocoyena sp., Vismia cayennensis e V. guianensis (lacres). Os solos destes campos são fortemente gleizados, hidromórficos, mal drenados e elevado teor de matéria orgânica. Os terrenos também são recentes, holocênicos.

Restingas litorâneas. As restingas do Marajó estão associadas às áreas de praias dos municípios de Salvaterra e Soure. Essas restingas têm influência do oceano Atlântico, notadamente entre os meses de julho e dezembro, quando as águas da baia do Marajó se tornam salobras (Lisboa 1993). Isto faculta o aparecimento de espécies características de restingas oceânicas como Chrysobalanus icaco (ajuru), Anacardium occidentale (caju), Protium heptaphyllum (breu), Ipomoea asarifolia (salsa da praia), Byrsonima crassifolia (murici), dentre outras. Dentre as espécies herbáceas destas restingas, destacam-se Sporolobus pugens, que forma densos tapetes, juntamente com Cynodon dactylon, Rhynchospora cannaniculata, Eleocharis capitata, Crenea maritima e Spartina alterniflora (Lisboa, 1993). Os solos são arenosos, desestruturados, formados pela deposição de sedimentos arenosos de origem marinha, pobres, neutros e com razoável concentração de cloretos.



Escrito por Samuel Soares de Almeida às 06h19
[] [envie esta mensagem
]


 

 

ARQUIPÉLAGO DO MARAJÓ – MEIO FÍSICO, VEGETAÇÃO E FLORA, por Samuel Soares de Almeida, Ecólogo Florestal, Belém, PA

SINTESE DO CONHECIMENTO BOTÃNICO E FITOGEOGRÁFICO

O arquipélago do Marajó apresenta um conjunto vegetacional singular em termos de Amazônia, onde predominam os campos naturais e as florestas úmidas suceptíveis à inundação que acontece anualmente durante o inverno chuvoso da região. O Marajó constitui uma província fitogeográfica à parte nos estudos que tratam da classificação das formações vegetais da Amazônia, como aqueles de Pires (1973) Pires & Prance (1985) e Ducke (1954). Além dos compêndios do RADAMBRASIL (1974), foram feitas outras tentativas de mapear e classificar a vegetação do arquipélago do Marajó (Dias 1973) e Dias e Lobato (1982). Pires (1955) também produziu algumas informações sobre os tipos de vegetação do Marajó, suas extensões e composição florística. No entanto, grande parte do conhecimento florístico e vegetacional sobre este vasto território está disperso e fragmentado, havendo deficiência na descrição e caracterização de algumas subtipologias específicas e mais restritas. Os campos do Marajó apresentam diferentes feições de acordo com a posição topográfica e a influência da rede de drenagem fluvial. Além dos campos úmidos limpos, com predominância do elemento herbáceo existem os campos com mondrongos, onde pequenas oscilações na microtopografia permite o estabelecimento do estrato arbustivo-arbóreo; existem ainda os campos com ilhas de mata e capões, de tamanhos e formas variados. Essas ilhas geralmente se desenvolvem nos tesos, zonas de topografia mais elevada onde geralmente os efeitos da inundação não se fazem sentir. As florestas são predominantemente do tipo pluviais ou ombrófilas e perenifolias. Apresentam um espectro que varia desde as florestas aluviais de terra firme, com pouca influência de inundação até aquelas de igapó, permanente ou quase permanentemente alagadas. As florestas de igapó mais frequentes são aquelas associadas com a palmeira açai (Euterpe oleracea), espécie importante na economia local e na manutenção alimentar de milhares de marajoaras. Nas florestas aluviais podem ocorrer ainda associação com as palmeiras inajá, bacaba, marajá e murumuru. As matas de várzeas estão restritas aos vales dos cursos d’água barrenta que irrigam a zona do canal, como os rios Atuá e e parte Anajás. A planície de inundação diária, promovida pelo movimento das marés, é de aproximadamente 50 m nas partes mais largas. TIPOS DE VEGETAÇÃO A vegetação desta região é constituída por três fisionomias muito distintas (Japiassu & Góes 1974): campo naturais, floresta tropical densa e vegetação pioneira com influência marinha. Os campos naturais, concentrados na metade oriental da região, incluem campos sazonalmente inundáveis caracterizados pela presença de capins e ciperáceas de porte variável (Paratheria prostata, Cyperus giganteus, Panicum spp.), os quais estão sob a influência sazonal das chuvas, permanecendo inundados por um período que varia de 3-4 meses, quando a paisagem é totalmente alterada; e campos de terra-firme, conhecidos localmente como tesos, que estão localizados sobre terrenos mais elevados de origem terciária e que apresentam vegetação de savana. Essas manchas de savanas incluem uma variedade considerável de ambientes como os campos limpos baixos, campo cerrado, campo de murundu, savana parque e cerrado “sensu stricto”, apresentando de maneira geral uma vegetação composta por capins (gêneros Aristida e Eragrostris) e árvores de pequeno porte (mangaba Hancornia speciosa, lixeira Curatella americana e murici Byrsonima sp.). Uma característica da paisagem desses campos naturais é a presença das veredas de buriti (Mauritia flexuosa). A cobertura vegetal do arquipélago do Marajó inclui uma variedade considerável de tipologias, que varia desde vegetação aberta e pequena biomassa, como os campos inundáveis; passando por outras formações também abertas como os campos de murundu, campo cerrado e demais formas savanóides. Por fim temos as formações florestais que incluem as florestas úmidas aluviais, ciliares ou não (matas de várzea), as florestas pantanosas (matas de igapós) e as florestas ombrófilas densas de terras baixas (matas de terra firme). A flora dos ambientes do arquipélago do Marajó é surpreendentemente mal conhecida e estudada de qualquer ponto de vista que se queira abordar. Isto porque o acesso é relativamente fácil (pelo menos para a parte sul) e a distância que o separa de Belém (~60 km a parte sul) e Macapá (~40 km da parte extrema do Norte), locais que abrigam instituições de pesquisa. O primeiro e mais abrangente estudo florístico foi aquele realizado por Jaques Huber, botânico suíço e um dos fundadores do Museu Goeldi. Ele coletou mais de 2 centenas de espécies nos campos, várzeas, paranás e lagos do Marajó, durante os anos de 1896 e 1897 (Huber, 1898). Na mesmo época, Vicente Chermont de Miranda, um rico fazendeiro marajoara, amigo de Huber e que tinha a botânica como hobby, colecionou, depositou e relatou a ocorrência de cerca de 120 espécies de ervas, arbustos e árvores dos campos do Marajó, especialmente aquelas de interesse pecuário, para alimentação de gado bovino e bubalino (Miranda, 1907/08). Posteriormente, Ducke & Black (1954), apresentam uma caracterização dos ambientes de campo e matas, espécies características e a constatação de que a área é pobre em endemismos, como se espera de áreas com formação geológica recentes como o Marajó. Pires & Prance (1985) descrevem as paisagens do Marajó, especialmente os campos e várzeas. A composição florística das savanas foi comparada por Miranda & Carneiro(1994). Numa análise de similaridade genérica, eles constataram afinidades florísticas entre as áreas do Marajó com aquelas de Roraima, Ariramba (Pará) e Humaitá (Amazonas). Outras áreas no Marajó (Dantas et al. 1999) e de savanas próximas também tem sido estudadas do ponto de vista florístico (Lima, 1958, Oren 1998; Miranda 1991) A flora das manchas savânicas da vila de Joanes, município de Salvaterra, foi estudada por Bastos (1984), que registrou a ocorrência de dezenas de espécies, algumas comuns a áreas de restingas e de cerrados da Amazônia e do Brasil Central. A respeito disto, Miranda (1994) afirma que a maioria das principais famílias botânicas das savanas amazônicas são comuns às áreas de cerrado do Brasil Central. Estudos mais recentes feitos na ilha do Marajó para diversos grupos vegetais, têm apontado para uma diversidade considerável, como as palmeiras (Henderson et al., 1991) e musgos (Lisboa et al., 1999; Lisboa et al., 1998; Maciel et al., 1993). Para se ter uma melhor visão das paisagens savânicas do Marajó, parte da equipe fez um sobrevôo ao Marajó, numa iniciativa apoiada e financiada pela TNC (The Nature Conservancy), no dia 01 de março de 2002. Participaram do sobrevôo Samuel Soares de Almeida, Dário Dantas do Amaral (botânicos) e Andréa Valente (técnica em geoprocessamento e GIS). Foram sobrevoadas todas as manchas de savanas indicadas no workshop de cerrado para a área e feita farta documentação fotográfica. Serão anexados à proposta, um relatório fotográfico e um mapa com as tipologias abaixo discriminadas, cujas legendas são as mesmas da base do PROBIO/ISA.



Escrito por Samuel Soares de Almeida às 06h10
[] [envie esta mensagem
]


 

 

Os mananciais hidricos do Utinga que Abastecem Belém, por Samuel Soares de Almeida, Ecólogo Florstal, Museu Goeldi, Belém-PA


A área focal do projeto é a região do entorno dos mananciais do Utinga, no município de Belém, Estado do Pará. Esses mananciais são compostos por um sistema de lagos (Bolonha e Água Preta), rios (Guamá e Aurá) e pequenos igarapés (Água preta, Utinga, Murutucu e Buiussuquara). Os objetivos principais são: (a) Recuperar as florestas ciliares dos mananciais do complexo Utinga, visando melhorar a qualidade da água que atende a população urbana de Belém; (b) Conscientizar as comunidades do entorno para a importância do complexo Utinga, visando melhorar a qualidade de vida local e a manutenção da qualidade dos mananciais. Para a obtenção dos objetivos propostos serão desenvolvidas várias atividades, entre elas a identificação, quantificação e avaliação biofísica das manchas de áreas críticas desmatadas; diagnóstico das condições sócio-ambientais das comunidades do entorno dos mananciais; inventário florístico e seleção de espécies aptas a revegetação; recomposição das manchas desmatadas através de técnicas e modelos de revegetação e utilização técnicas pedagógicas participativas de educação ambiental focalizadas na questão da conservação e uso sustentável dos recursos hídricos e a importância das matas ciliares para a conservação do solo e da qualidade da água dos mananciais. O suporte educacional prevê a realização de treinamentos, oficinas, elaboração e cartilhas, visitas a campo e repasse de conteúdo e material à rede escolar. O instrumental metodológico e as ferramentas a serem utilizadas para alcance dos objetivos contemplam o uso de imagens de satélite e fotos aéreas, processamento e análise espacial utilizando técnicas de geoprocessamento; plantio direto de mudas utilizando modelos e técnicas de revegetação e silvicultura de precisão. Espera-se que com a execução do projeto haja melhoria geral da qualidade da água servida as populações dos municípios de Belém e Ananindeua, bem como elevação dos padrões de qualidade de vida das comunidades do entorno.

No caso específico de Belém, foco desta proposta, a qualidade de água vem decaindo continuamente preocupando os governantes locais, temerosos de um desastre epidemiológico e colapso do abastecimento (DIAS et al. 1991), uma vez os problemas de assoreamento do leito dos lagos, ocasionado pelo desmatamento da floresta ciliar; os processos de invasão de macrófitas aquáticas transpostas do sistema fluvial através do bombeamento e a poluição do sistema causado pela deposição de dejetos estão alcançando elevadas proporções à medida que a população do entorno aumenta. Esses impactos causam, além da diminuição da capacidade de armazenamento dos reservatórios, a depleção dos indicadores físico-químicos de qualidade da água.

A maioria das comunidades que serão beneficiadas é constituída por pessoas de baixos níveis de renda e de escolaridade. Grande parte é oriunda da própria cidade de Belém e parte do interior do Estado. O baixo poder aquisitivo tem sido responsável pela manutenção de do padrão de assentamento baseado em ocupação de áreas críticas como margens de rios, várzeas, locais de drenagem, áreas de elevada declividade entre outras (SILVA, 1999).No sentido de melhorar a qualidade da água, a COSANPA está trabalhando juntamente com a UFPA e outros órgãos na análise, mitigação e monitoramento da água do complexo Utinga, visando dotar o sistema de padrões compatíveis e que ofereça mais segurança aos usuários. No entanto, falta um conjunto de ações que garantam a sanidade ambiental do sistema como a proteção das matas ciliares e conscientização das comunidades do entorno através de educação ambiental. É isto o que se propõe este projeto.

 Parque Ambiental, APA e lagos do utinga

 

 



Escrito por Samuel Soares de Almeida às 05h13
[] [envie esta mensagem
]


 

 

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA DAS PRINCIPAIS ESPÉCIES MADEIREIRAS DE VÁRZEAS AMAZONICAS

por Samuel Soares de Almeida, M.Sc. Ecologia Florestal, Pesqusiador Associado, Museu Goeldi, Belém-PA


A distribuição, riqueza e estrutura de espécies arbóreas nas várzeas amazônicas dependem primariamente de dois fatores: primeiro, como descrito por Junk (1989) e Ayres (1993), locais com diferentes topografias apresentam amplitudes e períodos de inundação diferentes o que selecionam as espécies com capacidades diferenciadas de tolerância a inundação e segundo a velocidade do ciclo de sedimentação e erosão (Wittman et al. 2002). Contudo, o número de levantamentos não é suficiente para afirmar que as distribuições de espécies nas florestas de várzea sejam tão diferenciadas como nas florestas de igapó, onde a maior idade neste sistema pode ter permitido um maior nível de especiação e endemismo entre os rios. Contudo, algumas espécies, como as que colonizam as primeiras fases da sucessão são muito diferentes nas várzeas dos rios do Peru e do Brasil.

Kubitzki (1989) relata que a distribuição de muitas espécies nas áreas alagáveis na Amazônia coincidem com os limites do bioma, mas que as áreas periodicamente alagadas por rios de água preta e clara apresentam uma grande diferenciação e endemismo entre seus interflúvios, por exemplo, já documentados na bacia do rio Negro. Esta maior diferenciação na distribuição de espécies pode estar diretamente relacionada com a maior idade destes ecossistemas em comparação com as áreas alagadas por rios de águas brancas. Contudo, alguns autores têm documentado as espécies pioneiras, capazes de suportar altas taxas de sedimentação e erosão nas praias recém-descobertas nas várzeas da Amazônia são diferentes. Salo et al. (1986) e Kalliola et al. (1991) relatam como espécies pioneiras nesta fase da sucessão Gynerium sagittatum (Poaceae) e Tessaria integrifólia (Asteraceae) enquanto, Wittmann et al. (2002) e Worbes (1997) descrevem Salix martiana (Salicaceae) e Alchornea castanaefilia (Euphorbiaceae) como espécies dominantes nos rios da Amazônia central.

Parolin (2000) relata em sua revisão sobre a composição de espécies nas florestas de várzea na Amazônia relata que são descritas aproximadamente 250 espécies arbóreas, variando de 53 espécies por hectare nas várzeas do baixo Amazonas, 109 na Amazônia central e cerca de 177 e 149 espécies por hectare nas várzeas do oeste da Amazônia. Contudo, estas comparações devem ser feitas levando em consideração a posição destes inventários no gradiente de inundação das várzeas. Contudo, parece claro que existe um gradiente crescente de diversidade no sentido leste-oeste, provavelmente resultante da maior dinâmica fluvial dos rios no oeste da Amazônia, que resultam em uma maior heterogeneidade de habitats.

Os altos cursos de alguns rios de água branca como o Amazonas, Ucayali, Maranon, Madre de Dios (Peru), Beni (Bolívia), Juruá e Purus (Brasil) têm grandes meandros, com elevada velocidade de escoamento, onde a amplitude de inundação pode atingir entre 10 e 20 m. Devido sua posição geográfica, situados zona de transição entre as zonas de sub-montanhas e das terras baixas de planície, estes rios possuem uma dinâmica hidrológica considerável (Kalliola et al. 1991), com elevada taxa de erosão e deposição de sedimentos, fatores tem profundo impacto na distribuição das espécies que colonizam estes ecossistemas o que pode explicar as diferenças nas composições de espécies entre as várzeas peruanas e as encontradas na Amazônia central e oriental (Parolin et al. 2002).

Nestes ecossistemas são freqüentes as adaptações ecológicas, fisiológicas e morfológicas para suportar os períodos sob inundação onde o suprimento de oxigênio é precário. Almeida (1996) relata que algumas espécies arbóreas nas várzeas do estuário do baixo Amazonas possuem mecanismos de regulação osmótica da água, permitindo que suas raízes e seus caules suportarem pelo menos 12 horas de inundação a cada dia. Outras adaptações fisiológicas citadas por diversos autores são a intensa troca de gases pelas lenticelas caulinares, para compensar a hipoxia ao nível de raízes; o controle da abertura estomática nas folhas, a perda total ou parcial de folhas e o ritmo de crescimento sazonal das plantas regulado pelo período de inundação (Schluter 1983, Worbes 1997, Parolin 2000). Entre as adaptações morfológicas, aparecem com freqüência as Sapopemas (raízes tabulares), que facilita a sustentação de grandes árvores; a presença de raízes adventícias e estruturas aéreas como rizóforos, lenticelas, pneumatóforos, entre outros (Parolin 2000).



Escrito por Samuel Soares de Almeida às 16h43
[] [envie esta mensagem
]